sábado, 23 de março de 2013

Rivaldo: "Ninguém mexe no CT até 2021"

Lucas Valério - Para o Jornal O Impacto

Na quarta-feira, 20, logo após o feriado de São José, padroeiro da cidade, Rivaldo atendeu a reportagem de O Impacto na sala da presidência no estádio Romildo Vitor Gomes Ferreira (Romildão). Ao lado de Wilson Bonetti, advogado, presidente em exercício do Mogi e fiel escudeiro do pentacampeão há 17 anos, Rivaldo abru o jogo. Falou sobre sua quase-saída do clube em janeiro, a negociação pela saída de seu parceiro, Hélio Vasone Júnior e também sobre as polêmicas envolvendo o CT. 

Calmo e atencioso, não fugiu de uma pergunta sequer. Demonstrou vontade de reconquistar o respeito dos mogimirianos após uma chateação que pareceu mútua entre ele e a cidade. Confira, em tópicos, as respostas de Rivaldo sobre Mogi Mirim, Energy Sports, Seleção Brasileira e o futuro profissional... 

A PARCERIA

“O fim da parceria estava praticamente resolvida no dia 15 de janeiro. Eu ia sair do Mogi, ia deixar tudo na mão do Hélio (Vasone). Mas, de repente, o combinado no dia 15 foi desfeito e aí não teve nenhum acerto. Hoje (quarta-feira, 20), o Hélio ainda se encontra comigo aqui no Mogi Mirim, mas tudo indica, pela conversa que a gente teve, que ele irá sair. Eu continuo juntamente com Wilson (Bonetti, presidente em exercício) aqui no clube. Só estamos buscando a melhor solução para a saída dele. Como ele entrou e investiu, estamos conversando ainda e não entramos ainda em um acordo. Eu espero que tudo seja resolvido o mais rápido possível para que eu possa dar continuidade na montagem do time da Série-C do Brasileiro”.

FIM DO PACTO ANTES DO PAULISTÃO

“Tudo depende da evolução das conversas. Acredito que pelo o que ele falou, vai ficar até final do Paulista, mas nunca se sabe, pode até mudar tudo e resolver ficar. Só que se continuar, tem que ser de maneira suave, da maneira que iniciamos aqui no Mogi Mirim, com pés no chão. Eu sou uma pessoa com vínculo com a cidade, tenho filhos e familiares aqui. Tem que ter cuidado, pés no chão. Não adianta pensar em gastar fortunas para chegar rapidamente na primeira divisão. E se não der certo? Vai deixar o clube endividado? Se não tiver pés no chão, (essa falta de cuidado) pode chegar até a falência. E eu tenho uma história bonita aqui em Mogi Mirim. Por isso, tenho que ter pés no chão para fazer essas coisas”.

HÉLIO COGITOU SAIR EM 2012

“Isso nunca foi publicado, mas no começo de 2012, o Hélio chamou eu e o Wilson para conversar. Nos encontramos em um shopping, tomamos um café e ele disse que ia ficar até tal dia e depois sair. Ele comentou que precisava ficar na Energy e que ia ficar difícil ficar aqui. Eu disse que ‘tudo bem’, mas como me pegou de surpresa, eu precisava de tempo para achar alguém para ajudar no investimento e pedi que ele desse um prazo para fazer isso. Só que uma semana depois, eu ligava para o Wilson e ele dizia que as pessoas que trabalhavam para ele estavam pensando nas coisas que vinham pela frente, no projeto do CT (de captação de recursos por intermédio da Lei de Incentivos), na Série-D e eu fiquei sem entender nada. Como alguém pede para sair e pensa no futuro (do Mogi Mirim)? Resolvi nem correr atrás de ninguém (de outro parceiro), porque ele estava pensando em projeto para um, dois anos à frente”.

MOTIVO PARA A QUASE-SAÍDA

“Muitas coisas que aconteceram na própria cidade, a história do prédio (ao lado da igreja Nossa Senhora do Carmo, que sofreu abalos em sua estrutura), fiquei um pouco triste. Fiquei sabendo que haveria passeata contra mim por causa da Igreja do Carmo. Jamais quero algo contra a cidade, um lugar que eu adoro. E quando isso aconteceu, eu disse que não tava entendendo mais nada. Entendi que eu estava em esforçando, mas muitas pessoas que não vem aos jogos do Mogi começaram a me criticar, colocando o tema da religião em pauta pelo fato de eu ser evangélico e pelo atrito ocorrido com a Igreja Católica. Quando aconteceu o problema, fizemos de tudo para verificar. E se houvesse algo errado, iríamos consertar. Mas, antes da construção, vimos tudo, ninguém começa uma construção sem olhar ao redor. Seja igreja Católica, Evangélica ou qualquer outro tipo de prédio ao redor. Aí, essas coisas magoaram e resolvi sair do Mogi e deixar na mão dele (do Hélio Vasone). No dia 15 de janeiro, eu estava em Recife, conversei com o Wilson por telefone e ele acertou tudo com o Hélio. Só que uma semana depois as coisas mudaram”.

FIM DA PARCERIA ADIADO

“Quando acertei minha saída, ficou ACERTADO que eu receberia os CTs, só que eu ia deixá-los por quatro anos com o Mogi Mirim, não ia por a mão neles. As áreas foram avaliadas em pouco mais de R$ 6 milhões. Estava tudo certo quanto aos valores. Depois de uma semana, ele (Hélio Vasone) apareceu, disse que havia mandado uma pessoa de São Paulo avaliar de novo e que os dois CTs, de Mogi Guaçu e Limeira, valiam R$ 12 milhões. Por isso o negócio voltou atrás. Eu fiquei muito chateado porque soltei no Twitter que estava saindo e fiquei como mentiroso. Para ele também ficou ruim, porque prometeu isso e aquilo e não deu certo. Mas, no final, eu acredito que foi até bom não ter dado nada certo, que foi coisa de Deus. Porque, caso contrário, ia poder dar mais confusão essa história de CT. Poderia vir alguém dizer que o Rivaldo destruiu patrimônio do Mogi. Eu não quero destruir nada”.

CENTROS DE TREINAMENTO

Para finalizar a parceria, ele está aguardando minha reposta, mas meu pensamento é de que o Mogi Mirim continue com o CT do jeito que foi combinado com ele e ninguém venda, ninguém mexe no CT até 2021. É bom deixar bem claro para as pessoas que torcem para o Mogi que (esse tipo de garantia) é normal, porque ninguém vai entrar para investir no Mogi sem saber que garantia vai ter de retorno. Nenhum investidor vai por dinheiro sem saber garantia. E o bem mais caro é o CT. Na época que assumi o clube, paguei a dívida que havia com o ‘seu’ Wilson (Fernandes de Barros, ex-presidente). Hoje, se alguém quiser, que pague a minha dívida e a do Hélio e assuma o comando do Mogi Mirim”.

SOLUÇÃO RÁPIDA

“Precisamos definir tudo o mais rápido possível para que eu possa montar o time da Série-C. Isso aí era para acontecer ontem. Mas, estou pensando, conversando, estudando a melhor situação para o futuro do Mogi. Vou conversar com ele (Hélio Vasone), saber se vai aceitar ou não minha proposta. Isso do contrato não tem porque não aceitar. Vou fazer a mesma coisa quando resolvi que eu iria sair. Em cada venda de jogador, 25% é dele até que liquidamos a dívida”. 

CUIDADO NOS NEGÓCIOS

“Tudo o que há de gastos do clube está no computador, nota por nota. Não só do Mogi, mas toda minha vida, não tem uma vírgula de problema com imposto. O Wilson Bonetti me conhece há 17 anos e até hoje me cobra documentação para declaração de imposto de renda, para fazer tudo direitinho. Tudo o que eu ganhei na minha vida e tenho até hoje a Receita Federal sabe. Não tenho nada de errado, não quero sujar meu nome por nada. Aqui no Mogi não tem esse negócio de ‘caixa 2’. É preto no branco”.

CARINHO COM MOGI

“Fiquei por um tempo meio preocupado, até pensei em largar. Estava sendo muito criticado e isso vai enchendo. Mas, às vezes não consigo, é complicado deixar o clube. E se acontece o pior? Todo mundo vem pra cima de mim. Sou grato por Mogi Mirim, que me deu a oportunidade de aparecer para o mundo. Acho também que Mogi pode ter alguma gratidão por mim, também ajudei a colocar o nome da cidade em evidência. Muitos me perguntam onde comecei e falam de Mogi. E por causa desse carinho todo, é que cinco anos atrás, quando o Wilson Bonetti me ligou e disse que havia um grupo de empresários de São Paulo querendo assumir o Mogi, que eu pedi para ele conversar certinho, ir atrás, e se ele agüentasse, que iríamos assumir nós então, para não deixar o clube na mão de qualquer um”.

POUCA TORCIDA NO ESTÁDIO

“Aqui em Mogi até hoje eu não entendo porque as pessoas não gostam de ir ao campo para ver o time da cidade. Vendo a situação de Piracicaba, quantas pessoas vão ver o XV? Aqui, pessoas que mal vão ao estádio escrevem muita bobagem na internet. Hoje em dia é fácil esculhambar as pessoas, sentado no sofá, pelo computador. Isso deixa a gente triste. Deus do céu, como é difícil estar em um clube de futebol do interior. Se fossem cinco, seis, sete mil pessoas no estádio, seria bom para todo mundo. Mas, lembro que na época do ‘seu’ Wilson, quando tinha até sorteio de carro e não vinha muito público nos jogos. Não vai ser essa mudança de nome do estádio (de Romildo Vitor Gomes Ferreira para Vail Chaves), essas coisinhas que vão levar o torcedor para o campo. E acho que a minha saída em 2011 para o São Paulo não alterou isso. Muitos pegam isso como desculpa. Eu poderia ser criticado aqui pelo rendimento, por ter 39 anos na época. Mas muito se esquecem que, mesmo estando no São Paulo, eu continuei investindo no Mogi. Mesmo no São Caetano, estou aqui investindo. Às vezes é preciso trabalhar fora para poder investir (no Mogi). É isso o que acontece hoje”.
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