Quantos casamentos duram 39 anos? Uma das instituições (ou sacramentos no âmbito religioso) mais antigas da humanidade geralmente causa espanto e admiração quando se alcança esta marca. Além da longevidade do casal, é necessário superar obstáculos que cada vez mais são facilmente trocados por documentos de separação. Mas um casamento em Mogi Mirim chegou aos 39 anos no dia 24 de janeiro: o do Mogi Mirim Esporte Clube com o roupeiro Vanderlei Pereira. A união assinada em 1974 é ainda mais curiosa quando o itapirense de nascimento e mogimiriano por adoção conta que faz aniversário no dia 23 de janeiro, um dia antes do desembarque ao clube. A associação das datas parecia cravar o destino do roupeiro e o presente do aniversário de 23 anos já dura 39.
Contratado para ser zelador, em poucos anos foi sendo remanejado até chegar ao cargo de roupeiro. A função o tornou figura próxima a dirigentes, comissões técnicas e principalmente jogadores. Vanderlei passou a ser chamado de Delei, Deco e outros apelidos, para ele, carinhosos. De Amílcar Malvezzi a Hélio Vasone Júnior. De Chicão e Zé Carlos Serrão a Baraka e Roni. Passando por Wilson Fernandes de Barros e as peças do Carrossel Caipira. Em 39 temporadas quem passou pelo clube teve em comum a presença de Vanderlei nos vestiários.
Aos poucos o roupeiro transformou o Sapo em sua segunda casa. Fez da cidade também um novo lar. Logo que recebeu a proposta para trabalhar no clube deixou Itapira e fez a vida na vizinha cidade. Em Mogi construiu casa, comprou carro e principalmente, instituiu uma família. “Passei por dois casamentos, hoje tenho seis filhos. Praticamente toda a minha vida passou por Mogi Mirim e pelo Mogi Mirim”, conta Vanderlei.
Saído da roça, como ele mesmo faz questão de frisar, o roupeiro disse que passou a conviver em uma sociedade muito diferente da infância em Itapira. A semelhança ficou apenas em outro campo. O de futebol. Desde pequeno acompanha o pai, zelador do estádio Coronel Francisco Vieira em Itapira. Vanderlei seguiu o caminho paterno em um estádio diferente, mas além das conquistas profissionais e familiares, também garante que carrega também uma gama considerável de amigos. O seleto grupo é chamado de “amigos de verdade” por Vanderlei. Sem esticar uma lista de nomes, para não ser injusto, citou figuras como o ex-gerente de futebol Henrique Stort, com quem conviveu na época de jogador e dirigente. “Ele sempre me ajudou muito”.
EMOÇÕES
Porém, não associar a história do Mogi Mirim com seus grandes momentos em vida é tarefa quase impossível para Vanderlei. Entre as celebrações, o acesso para a elite paulista em 1984 alcança o topo. Subir da Série-D para a terceira divisão nacional na temporada passada também é uma memória guardada com carinho. “Foram conquistas suadas, difíceis. Só quem viveu tudo isso sabe como foi. Sou muito feliz por ter estado tão perto de vitórias como essas”, contou Vanderlei.
Mas ver a equipe pela primeira vez entre os maiores clubes do estado ou em uma nova divisão a nível nacional não ocupa isoladamente o coração de Vanderlei. Entre outros momentos recordados está a passagem fugaz, mas marcante, de um ídolo pelos gramados do estádio que sempre zelou. Paulo Roberto Falcão ainda era o “Rei de Roma” e, em 1983, se recuperando de cirurgia em Campinas, fez um amistoso de reabilitação no então estádio Vail Chaves.
“Ele não chegou a jogar no Mogi, mas ver um ídolo tão perto era inimaginável na época”, se emociona Vanderlei. E entre as tantas passagens, o roupeiro só faz questão de enfatizar um detalhe. Não é um contador de histórias. “Vivi muitas histórias aqui dentro, mas não sou de contar, isso não é comigo”, garante Delei, a um passo de ter quatro décadas de histórias, seja para contar ou simplesmente, guardar na privilegiada memória.
Por Lucas Valério
Para o Jornal O Impacto
